Ukiyo-e, Hokusai e a origem da palavra "mangá": o mundo flutuante que moldou a arte japonesa
Já prometi esse post lá no texto sobre mikiri e os tipos de fundo da tatuagem oriental. Chegou a hora de falar do ukiyo-e, a tradição de gravura que deu forma visual a boa parte do que reconhecemos hoje como "estética japonesa", do horimono ao mangá contemporâneo. E, no meio do caminho, vamos entender por que a palavra "mangá" nem sempre significou o que significa hoje.
O que é o "mundo flutuante"
Ukiyo-e (浮世絵) significa literalmente "pinturas do mundo flutuante". A palavra se divide em ukiyo ("mundo flutuante") e ("pintura" ou "imagem"), e é o significado de ukiyo que carrega a história mais interessante.
Originalmente, ukiyo era um termo budista, escrito com caracteres diferentes (憂き世), que significava algo como "mundo sofredor" ou "mundo triste": uma referência ao ciclo de nascimento, sofrimento, morte e renascimento do qual o budismo busca libertação. Mas, ao longo do período Edo (1600–1867), numa cidade em franca expansão econômica e cultural, esse termo sofreu um trocadilho deliberado: como as duas palavras são homófonas em japonês, "mundo sofredor" foi reescrito trocando o caractere de "tristeza" pelo de "flutuar" (浮), criando "mundo flutuante" (浮世). A mudança de sentido não foi sutil — era quase uma provocação: em vez de lamentar a impermanência da vida, a cultura urbana do período Edo decidiu abraçá-la. Se tudo é passageiro mesmo, o gesto certo é flutuar sobre esse fato e aproveitar os prazeres do momento: teatro kabuki, casas de chá, sumô, cortesãs, os bairros de entretenimento como o Yoshiwara.
O ukiyo-e nasceu justamente para retratar esse universo. Gravuras em xilogravura, relativamente baratas e produzidas em série, que funcionavam quase como pôsteres ou revistas populares da época, vendidas para o crescente público urbano de comerciantes e artesãos (o chōnin) que não tinha acesso à pintura erudita reservada à aristocracia. Não por acaso, a mesma tensão entre impermanência e beleza que nomeia o ukiyo-e é a que, décadas depois, viria a nomear o mono no aware associado à sakura e a tantos outros motivos do horimono, como já vimos nos posts anteriores, essa sensibilidade atravessa praticamente toda a arte japonesa tradicional.
Hokusai, o mestre que via ondas em tudo
Nenhum nome está mais ligado ao ukiyo-e no imaginário ocidental do que Katsushika Hokusai (1760–1849). Ativo por quase sete décadas, ele produziu dezenas de milhares de gravuras, ilustrações de livros e pinturas ao longo da vida, e é o autor da obra mais reproduzida da história da arte japonesa: "Sob a Onda ao Largo de Kanagawa" (conhecida no Ocidente simplesmente como "A Grande Onda"), parte da série "Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji", criada entre 1830 e 1832.
Hokusai também deixou uma marca direta na estética que viria a inspirar a tatuagem tradicional japonesa: suas ilustrações para o romance Suikoden (o mesmo que, nas mãos de Utagawa Kuniyoshi, ajudou a popularizar o horimono) fazem parte de uma linhagem de artistas que tratavam heróis, ondas, ventos e paisagens com o mesmo vocabulário visual que depois migraria para a pele, as mesmas barras de vento, as mesmas ondas estilizadas que hoje reconhecemos no gakubori de um horimono têm raiz direta nesse repertório do ukiyo-e.
De onde vem a palavra "mangá"
E é aqui que entra uma curiosidade que costuma surpreender: em 1814, já com 52 anos, Hokusai publicou o primeiro volume de uma coleção de esboços chamada "Hokusai Manga" (北斎漫画). A obra cresceu ao longo dos anos, chegou a 15 volumes publicados entre 1814 e 1878 (os últimos já postumamente), reunindo cerca de 4.000 desenhos dos temas mais variados possíveis: pessoas comuns em suas profissões, lutadores de sumô, animais, plantas, paisagens, fenômenos naturais, monstros, fantasmas, divindades. Criada originalmente como material de referência para seus alunos, a obra explodiu em popularidade também entre o público geral.
Mas o "manga" do título de Hokusai não significa o que a palavra significa hoje. Na época, "manga" era formada pelos caracteres man (漫), que carrega a ideia de algo despretensioso, errante, feito ao acaso ou "por capricho", e ga (画), que significa simplesmente "desenho" ou "pintura". Juntas, as palavras descreviam algo como "desenhos soltos", "esboços ao sabor do pincel" ou, na tradução mais poética que o próprio Hokusai usou no prefácio do primeiro volume, "pincel selvagem", uma referência direta ao caráter solto e não-narrativo dos desenhos, que não têm nenhuma conexão sequencial entre si, ao contrário do mangá-quadrinho que conhecemos hoje.
Vale dizer que Hokusai não inventou a palavra: o termo "manga" já vinha sendo usado antes dele, em títulos de outras coletâneas de esboços e caricaturas do fim do século XVIII, também dentro da tradição do ukiyo-e. O que a popularidade da obra de Hokusai fez foi consolidar essa palavra no vocabulário artístico japonês, e com o tempo, o significado foi se estreitando: de "desenhos despretensiosos sobre qualquer assunto" para, já no século XX, a "narrativa em quadrinhos" que o mundo inteiro reconhece hoje. Não é errado dizer, portanto, que "Hokusai Manga" é um precursor estético do mangá contemporâneo, o próprio traço solto, expressivo e observacional de Hokusai é frequentemente citado como uma influência direta, mas tecnicamente a obra não é um "mangá" no sentido moderno da palavra: são páginas de esboços desconectados, não uma história contada em sequência.
Dois jeitos opostos de encarar o campo morfogenético
Vale abrir um parêntese filosófico, porque a lógica do ukiyo ganha ainda mais contraste quando comparada com outra tradição de pensamento bem distante no tempo e no espaço: o mundo das ideias de Platão.
Para Platão, existe um plano de Formas eternas e imutáveis, a Forma perfeita da beleza, da justiça, do círculo, que não muda nunca e que é, justamente por isso, "mais real" do que o mundo físico. O que vemos, tocamos e sentimos no dia a dia seria apenas sombra ou cópia imperfeita dessas Formas permanentes. A proposta filosófica é olhar através do mundo sensível em busca dessa camada de permanência por trás dele, se pensarmos nisso como um "campo" subjacente que organiza e origina as formas do mundo material, é um campo essencialmente estático, eterno, anterior a qualquer manifestação passageira.
O ukiyo caminha na direção oposta. Ele não propõe nenhum reino eterno escondido atrás das aparências. Pelo contrário, parte da premissa budista de que tudo, inclusive a própria existência, é impermanente (o sentido original de "mundo sofredor"), e a resposta cultural do período Edo foi abraçar essa transitoriedade em vez de tentar escapar dela através de alguma verdade fixa por trás do véu. Se existe algo como um campo organizador por trás das formas nessa visão, ele não é estático: é um campo em fluxo constante, que não aponta para uma perfeição imutável, mas para o próprio movimento, a própria mudança, como o estado natural das coisas. Não há uma Forma perfeita e eterna da flor de cerejeira esperando atrás da sakura real. A graça da sakura está exatamente no fato de ela cair.
São, portanto, dois sistemas quase espelhados de organizar a experiência: um busca a eternidade por trás do transitório; o outro trata o transitório como o próprio ponto, sem nada "mais real" a se buscar atrás dele. É essa segunda visão, o valor estético e espiritual da impermanência em si, que atravessa o ukiyo-e, o mono no aware da sakura e, por extensão, boa parte do repertório simbólico que a tatuagem tradicional japonesa herdou dessa tradição.
Por que isso importa para quem gosta de tatuagem
Entender o ukiyo-e como pano de fundo ajuda a enxergar a tatuagem japonesa tradicional com mais profundidade: o horimono não nasceu isolado, ele é um galho da mesma árvore que produziu o mangá moderno, as gravuras de Hokusai e Kuniyoshi, e boa parte do vocabulário visual e técnico que já vimos nos posts anteriores, mikiri, gakubori, o próprio conceito de composição sazonal. Quando um horishi entalha ondas ao redor de uma carpa ou barras de vento atrás de um dragão, ele está, de certa forma, continuando um diálogo visual que começou nas pranchas de madeira do período Edo, muito antes de existir agulha ou máquina de tatuar.
Mas ainda ficou uma dívida pendente neste texto: falei várias vezes em passagem, em impermanência, no "abraçar o efêmero" que dá nome ao próprio mundo flutuante, e citei de raspão o termo que resume tudo isso, o mono no aware. É essa sensibilidade específica, a comoção suave diante daquilo que é belo justamente por não durar, que explica por que a sakura caindo, e não a flor no auge, é o motivo mais tatuado da tradição japonesa. Ela merece um post só dela, e é para lá que vamos a seguir.
